Dependência emocional na visão psicanalítica

Freud, Lacan e outros autores

Por Francisca Amorim da Silva

A dependência emocional é frequentemente tratada como fraqueza, imaturidade ou “excesso de amor”. A psicanálise, no entanto, propõe outra leitura: trata-se de um modo de laço, uma forma particular de relação com o desejo, com a falta e com o Outro. Mais do que um problema comportamental, a dependência emocional revela algo da estrutura psíquica do sujeito e de sua história de vínculos.

Neste artigo, apresento como a dependência emocional é compreendida na psicanálise, a partir de Freud, Lacan e autores pós-freudianos, com articulações clínicas contemporâneas.


1. Freud: amor, perda e empobrecimento do Eu

Freud não utilizou diretamente o termo “dependência emocional”, mas descreveu seus fundamentos ao investigar o amor, o narcisismo e a melancolia.

Escolha de objeto e narcisismo

Em Introdução ao narcisismo (1914), Freud diferencia dois modos de amar:

    • Escolha anaclítica: o objeto amoroso substitui figuras primárias de cuidado.

    • Escolha narcísica: ama-se no outro aquilo que se é, foi ou gostaria de ser.

Na dependência emocional, o objeto amoroso passa a sustentar o valor do Eu. O sujeito sente que só existe, só é amado ou reconhecido através do outro.

Amar, nesses casos, não enriquece o Eu — ao contrário, o empobrece.


Amor e submissão

Em Psicologia das massas e análise do Eu (1921), Freud afirma que o indivíduo pode abandonar seu Ideal do Eu, colocando o objeto amado nesse lugar. Surge então a submissão, a idealização extrema e o medo constante da perda.

A dependência emocional aparece quando:

    • o Eu se fragiliza,

    • o outro se torna indispensável,

    • o amor passa a exigir renúncia de si.


Dependência e melancolia

Em Luto e melancolia (1917), Freud mostra que, na melancolia, o objeto perdido é incorporado ao Eu. A agressividade dirigida ao objeto volta-se contra o próprio sujeito, produzindo culpa, desvalorização e sofrimento intenso.

Muitas formas de dependência emocional apresentam um funcionamento melancólico, no qual a perda do outro equivale à perda de si mesmo.

sem o outro eu nao existo

2. Pulsão, repetição e laços que fazem sofrer

Em Além do princípio do prazer (1920), Freud introduz a noção de pulsão de morte, responsável pela repetição de experiências dolorosas.

Na dependência emocional:

    • o sujeito repete relações que causam sofrimento,

    • o vínculo é mantido apesar da dor,

    • há um gozo inconsciente na própria submissão.

A dependência não é sustentada pelo prazer, mas pela repetição pulsional.


3. Lacan: dependência, falta e o Outro

Lacan desloca a discussão do campo do objeto para o campo do desejo e da linguagem.

O desejo do Outro

Para Lacan, o sujeito se constitui a partir do Outro:

“O desejo do homem é o desejo do Outro.”

Na dependência emocional, o sujeito depende do olhar, da palavra e do amor do outro para garantir sua própria existência simbólica. A ausência do outro produz angústia intensa, muitas vezes vivida como aniquilamento.


Objeto a e fantasia

O parceiro pode ocupar o lugar do objeto a — não como alguém amado em sua alteridade, mas como aquilo que parece tamponar a falta.

A dependência se sustenta em fantasias inconscientes, como:

    • “Sou amado se me anulo”

    • “Preciso sofrer para ser desejado”

    • “Sem o outro, eu não existo”

O trabalho analítico visa a travessia dessa fantasia, permitindo que o sujeito recupere seu desejo.

4. Dependência emocional e estruturas clínicas

A dependência emocional pode se manifestar de formas distintas:

    • Neurose: medo de abandono, ambivalência, culpa.

    • Estados melancólicos: colapso subjetivo diante da perda do outro.

    • Funcionamento borderline: relações fusionais, idealização e desvalorização.

A psicanálise não reduz a dependência a um diagnóstico, mas escuta sua função na economia psíquica do sujeito.


5. Outros autores fundamentais

Melanie Klein

Relaciona a dependência à posição depressiva, marcada pelo medo de perder ou destruir o objeto amado.

Winnicott

Entende a dependência como resultado de falhas no ambiente primário. O outro funciona como sustentação da continuidade de ser.

André Green

Trabalha a clínica do vazio, onde a dependência surge como defesa contra o desinvestimento psíquico e o colapso interno.

6. Direção do tratamento psicanalítico

A psicanálise não busca ensinar “autonomia emocional”, mas:

    • separar amor de aniquilamento,

    • sustentar a falta sem colapso,

    • devolver o desejo ao sujeito,

    • permitir novas formas de laço.

Trata-se de construir um amor que não exija a perda de si.


Considerações finais

Na visão psicanalítica, a dependência emocional não é excesso de amor, mas uma dificuldade de lidar com a falta e com a separação. Compreendê-la exige escutar a história do sujeito, suas perdas, fantasias e modos de desejar.

Mais do que romper vínculos, o trabalho clínico propõe transformar a forma de amar.

 

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